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Lugar Maldito

Junho 23, 2008

Lembro me de já ter tido este sonho há bastante tempo, ou pelo menos um que o precedesse. Mas esta sensação me ocorria vagarosamente à medida que percorria as veredas horríveis daquele lugar amaldiçoado. Quando dei por mim, após vários fatos estranhos, estava meio que acordando. Algumas pessoas estavam a minha volta, talvez duas dúzias delas. E a meu lado uma pessoa conhecida. Não recordo de muitas palavras. Do alto da torre era possível ver lotes, às vezes vagos, ou com pequenas construções em destroços. Num destes, um homem violentava uma mulher desnuda. Tudo era cinzento, fosco. Eu não tinha uma noção exata de coisa alguma. Tudo estava enevoado, e minha consciência era baixa. Estava assistindo a tudo em primeira pessoa, sem qualquer personalidade ou atitude. Mas eu sabia que nada daquilo era bom. Que estávamos todos em uma masmorra novamente, e que infelizmente eu já havia passado por aquilo, naquele lugar. De alguma forma eu sabia.

Quaisquer criaturas, ou pessoas talvez, nos empurraram para que descêssemos até o solo. Eram guardas a receber-nos como foragidos, prisioneiros. Mas nenhum de nós estava acorrentado ou preso de verdade. Apenas nos sentíamos indefesos diante de tudo, confusos e fracos, como se tivéssemos acabado de acordar de um longo sono, com nossos corpos despreparados para responder às ameaças, e nossas cabeças atordoadas diante do ambiente dantesco. Daí em diante quase tudo se apaga, talvez felizmente para mim, e quando as cenas novamente se desenrolam, eu corro tanto quanto posso. Em meio a arbustos, por vielas íngremes e secas próximo a um grande vale como que escavado, largo e com seu fundo plano, poeirento. Neste caminho pergunto a um homem sujo como todos aqui, se ele conhece quem eu procuro, e digo como ela é, baixa, magra com cabelos negros. Ele diz com seu jeito tosco e grosso que já viu alguém parecido, e aponto para as ruínas na direção do vale.

Esgueiro-me entre os marcos sem portas. Olho rápido dentro de cada cômodo e tudo exala luxúria e nojo. Embora pareça apenas um bordel, eu sei que se prestasse atenção, não suportaria nem mesmo respirar naquele lugar, era preciso ser rápido ao estar ali. Tudo poderia me contaminar, tirar minha consciência e então eu me perderia. Continuo a vagar entre os quartos até que no fundo de um deles, no escuro vejo uma mulher prostrada. Tão torpe ela estava que não poderia se levantar. Ela não possuía mais a forma humana, sua cabeça era quadrada, como se tivesse sido prensada e inchado muito. Não era capaz de juntar palavras. Tudo que a cercava estava podre e morto, ela também de certa forma. Acho que um homem que estava no quarto saiu assim que entrei, mas não o vi diretamente. Não senti cheiro algum, não senti nojo diretamente, mas eu estava num estado especial, e sabia que estava lá para fazer algo.

Deitei-me a seu lado numa espécie de tapete ou colchão que parecia ser mais um grande animal morto, uma carcaça coberta de vermes. Uma substancia gelatinosa cobria este colchão, e também parte do corpo nu desta mulher que eu procurava. Ninguém jamais suportaria estar neste lugar, a não ser que não fosse mais humano, e ela não era, há muito tempo.

Eu não estava triste, eu estava fazendo aquilo que eu tentava desde que havia chegado naquele lugar, eu tentava sair de lá. E por muito tempo não pude já que não poderia deixar esta mulher, agora despida de qualquer humanidade, sozinha neste maldito mundo de sombras. Fiz um sinal para o homem que agora estava de pé junto à saída do quarto, o sinal de uma arma disparando. Não vi a arma chegar à minha mão, a esquerda eu acho.

Ela estava calma, mas ainda balbuciava murmúrios como um animal. Então, só me lembro de sentir ou imaginar o disparo, apenas um disparo, contra nossas cabeças.